Investimentos

small-tiles John Benfield | 16 mai 2019

Os tempos estão mudando. O mundo está rumando para o investimento ético e sustentável no longo prazo. Os governos que se preparam para o futuro estão cada vez mais enfatizando o papel dos mercados financeiros no incentivo ao desenvolvimento sustentável. A demanda dos investidores por soluções de investimento responsáveis (IR) cresceu significativamente, como podemos observar pelo crescimento dos ativos alocados a investimentos relacionados a IR. Junto com a transição para o monitoramento de índices de ações de baixo custos, isso tem causado um aumento no número de índices de IR disponíveis atualmente. Nossa expectativa é de que os índices de IR tornem-se um importante passo inicial para a integração de critérios ambientais, sociais e de governança corporativa para muitos investidores com passivos ou investimentos baseados nesses fatores. Na Mercer, definimos Investimento Responsável como a integração de fatores ambientais, sociais e de governança corporativa aos processos de gestão de investimentos e práticas relacionadas à propriedade, acreditando que estes fatores podem ter um impacto relevante sobre o desempenho financeiro. Entretanto, na região do CCG, com os esforços para diversificar a economia, os governos estão acumulando conhecimentos sobre a importância do investimento responsável. O CCG soma quatro dos seis Fundos Soberanos que fundaram o Grupo de Trabalho do One Planet Sovereign Wealth Fund em dezembro de 2017, por ocasião da Cúpula One Planet em Paris. Dentro dos próprios Emirados Árabes Unidos, numerosas iniciativas (como a Economia Verde para o Desenvolvimento Sustentável e a Agenda Verde) estão impulsionando o país para o futuro do investimento responsável. Em conformidade com a estratégia de diversificação, essas iniciativas apoiam o plano Vision 2030, em alinhamento com as ambições de crescimento econômico e os alvos de sustentabilidade ambiental da nação. Abu Dhabi está contribuindo muito para a causa com vários desenvolvimentos, como a Cidade de Masdar, um projeto de energia verde de muitos bilhões de dólares.1 Enquanto isso, Dubai estabeleceu um parque energético e ambiental chamado Enpark, uma Zona Franca para empresas de energia limpa e tecnologia ambiental.2 À medida que os motivos comerciais para investir com responsabilidade se fortalecem na região do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), existe uma demanda crescente para integrar fatores ambientais, sociais e de governança ou temas relacionados à sustentabilidade nas decisões e processos de investimento. As instituições estão considerando os benefícios do investimento responsável, não apenas para os seus investimentos como também para sua reputação e os resultados obtidos. O investimento sustentável oferece oportunidades atraentes para explorar o potencial de crescimento de empresas que oferecem soluções para vários desafios, de escassez de recursos, mudanças demográficas e mudanças na evolução das respostas às políticas públicas e a uma diversidade de questões ambientais e sociais. Pesquisas e evidências do setor têm demonstrado os benefícios da integração dos fatores ESG ao desempenho das empresas no longo prazo. Por exemplo, o Deutsche Bank analisou mais de 100 estudos acadêmicos em 2012 e concluiu que as empresas com maiores classificações ESG apresentavam um custo de capital menor em termos de dívida e capital próprio. Outro estudo realizado em 2015 por Hsu (professor na Universidade Nacional Taichung de Ciência e Tecnologia) e Cheng (Professor da Universidade Nacional Chung Sing), ambos de Taiwan, descobriu que empresas socialmente responsáveis apresentam melhor desempenho em termos de classificação de crédito e oferecem menor risco de crédito.3 Com empresas operando contrariamente à definição de interesse público quanto a questões ambientais e sociais, a incorporação dos fatores ESG agora também é reconhecida como uma prática recomendada. Cada vez mais, os empregados querem trabalhar e investir em empresas que apresentem um impacto ambiental positivo. Iniciativas e organismos globais, como o CFA Institute, têm ressaltado os riscos para as finanças e a reputação de não levar em consideração os fatores ESG. Embora o CCG esteja começando a compreender os benefícios da aplicação de fatores ESG, a região não avançou muito nesse conceito. Investimentos em conformidade com a Sharia têm estado disponíveis nas últimas duas décadas. Ambos os modelos aplicam a abordagem da triagem negativa e buscam investimentos que ofereçam retorno sustentável. Com a combinação entre fatores ESG e triagem Sharia, os investidores islâmicos podem melhorar o desempenho dos investimentos e cumprir as metas sociais e ambientais ao mesmo tempo. Com o foco atual dos EAU na diversificação do seus investimentos, o país pode se beneficiar muito da criação de um mercado e uma cultura de investimento responsável, em que a estratégia e os processos andem lado a lado como passos importantes para uma integração bem-sucedida. Ao buscar o crescimento sustentável, uma camada adicional de conhecimento e fiscalização é muito importante para mitigar riscos emergentes, como a mudança climática. Com esse propósito, implementar avaliações ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG) ajudará a definir KPIs claros e identificar onde e como os projetos vão gerar valor e mitigar os riscos associados a eles. Por exemplo, a Mercer aplica um Modelo de Investimento para o Crescimento Sustentável com os seus clientes, que distingue as implicações financeiras (riscos) associadas aos fatores ambientais, sociais e de governança corporativa e as oportunidades de crescimento nos setores mais diretamente afetados por questões sustentáveis. Medir o impacto e mitigar riscos tornou-se cada vez mais importante e representa um forte processo de governança dos investimentos. Os benefícios de adotar os fatores ESG são inúmeros. Embora o CCG tenha iniciado a implementação de princípios ESG, ainda é necessário mais trabalho para assegurar que os governos estejam plenamente engajados com os stakeholders, incluindo os investidores, e que as estratégias estejam alinhadas em toda a região. As pressões regulatórias para cumprir padrões globais de integração de fatores ESG tendem apenas a aumentar nos próximos anos. Em lugar de fugir delas, é tempo de as empresas, os investidores e os governos se reunirem e definirem um modo de trabalho que traga avanços ao CCG em termos de investimento responsável e crescimento sustentável. Fontes: 1Carvalho, Stanley, "Abu Dhabi To Invest $15 Billion in Green Energy," Reuters, January 21, 2008, https://www.reuters.com/article/environment-emirates-energy-green-dc/abu-dhabi-to-invest-15-billion-in-green-energy-idUSL2131306920080121 2Energy and Environment Park:Setup Your Company In Enpark, UAE Freezone Setup, https://www.uaefreezonesetup.com/enpark-freezone 3Chen, Yu-Cheng and Hsu, Feng Jui, "Is a Firm's Financial Risk Associated With Corporate Social Responsibility?"Emerald City, 2015, https://www.emeraldinsight.com/doi/abs/10.1108/MD-02-2015-0047

Inovação

small-tiles Vineet Malhotra | 17 abr 2019

Músicos, poetas e filósofos passam a vida se perguntando: "Quem sou eu?". Em um futuro não tão distante, a resposta a essa pergunta poderá estar armazenada nos seus perfis pessoais de blockchain, ou seja, "baús" digitais que guardam os detalhes de cada decisão, ação e compra realizada desde o dia em que nascemos. Dê adeus à sua certidão de nascimento, passaporte, currículo e histórico médico, e conheça o futuro do blockchain: seu perfil de blockchain. Sua resposta exclusiva à pergunta "Quem é você?" será um registro cronológico, hiperdetalhado e imutável que afirma com uma certeza inédita "Eu sou assim". O blockchain não estará nos nossos pensamentos, emoções, sonhos ou pesadelos. Tampouco captará as confissões íntimas escritas em diários ou ditas ao espelho pela manhã. No entanto, o blockchain jamais se esquecerá que você quebrou o braço aos 5 anos (enquanto escalava um corrimão), como seu coração disparou quando você conheceu a pessoa amada (e deixou seu drink cair no chão) ou que você pagou taxa de entrega expressa em um par de sapatos pretos (para o casamento da sua prima). O blockchain pode não ser o "eu" que os filósofos gregos tinham em mente, mas será o "eu" que o resto do mundo vê — na melhor das hipóteses, com a sua permissão. Conheça seus direitos no mundo digital   As empresas querem ter acesso às suas decisões. As informações que detalham por que você escolheu passar férias no Vietnã, come mexilhões no seu restaurante italiano favorito toda terça-feira à noite ou só usa escovas de dentes com cerdas médias têm grande valor para empresas que querem vender passagens aéreas, frutos do mar e escovas de dentes para você e para pessoas como você. Todas as decisões e ações que você realiza online são dados que revelam parte da sua personalidade e dos seus processos de pensamento. Nos últimos anos, o mercado e os políticos têm debatido o grau de acesso que as empresas devem ter nas decisões pessoais de cada indivíduo, especialmente sobre o que se lê, onde se clica e o que se compra online. Embora haja forças poderosas querendo controlar os dados que as pessoas geram ao usar serviços virtuais, os ventos estão mudando e os órgãos regulatórios estão começando a trabalhar mais a favor da pessoa física. Em maio de 2018, a União Europeia fez história com o General Data Privacy Regulation (GDPR), regulamento que estabelece rigorosamente os direitos básicos sobre privacidade, propriedade, controle, consentimento e portabilidade de dados para todos os seus cidadãos, independentemente de onde seja a residência deles.1 Nos EUA, a HIPAA Privacy Rule estabelece padrões nacionais para proteger registros médicos e outras informações de saúde de pessoas físicas.2 Essas normas têm o objetivo de proteger cidadãos contra organizações que podem querem usar dados pessoais para fins diferentes dos para os quais foram coletados ou que desviam do consentimento explicitamente dado no momento da coleta e, para isso, preveem instrumentos para aplicar vultosas multas a quem as descumprir. Em uma era de transformação digital, é essencial que todos deem valor a seus dados pessoais e à amplitude de seus direitos à privacidade. À venda: hábitos de sono e rotina de atividades físicas   Agora, os dados pessoais fazem parte da dinâmica oferta/procura que move as organizações capitalistas. Além do poder de compra, os consumidores também têm acesso a pensamentos e atividades que antecedem determinadas compras. Essas informações têm um valor incomensurável para empresas que aplicam estratégias orientadas por dados para vender seus produtos e serviços para o público-alvo. Antes da tecnologia blockchain, não era possível ter um registro tão abrangente, capaz de acompanhar as compras e os comportamentos de alguém no contexto de tudo o que está acontecendo em sua vida. Mas agora isso é possível. Hoje, o blockchain possibilita que as pessoas tenham um perfil imutável com detalhes inimagináveis, que começa no dia em que nasceram e as acompanha por toda a vida, registrando tudo, desde quando perderam o primeiro dente até os nomes de seus netos. Cada consulta médica, cada pergunta respondida no dever de casa, cada clique do mouse, cada página visualizada. As empresas, naturalmente, desenvolverão inúmeras maneiras de incentivar que todos permitam o acesso a seus dados. Com direitos individuais estabelecidos como o padrão jurídico, os consumidores terão o poder neste relacionamento, podendo monetizar os dados ao alugar o acesso a diversos aspectos de seus perfis de blockchain, desde os hábitos de sono até a rotina de atividades físicas. À medida que mais acessos forem concedidos e mais fontes de dados estiverem conectadas, os comportamentos poderão ser previstos com mais precisão, aumentando o valor do perfil de uma pessoa. De fato, as pessoas conseguirão se identificar como alvos de marketing, pondo à venda perfis abrangentes e detalhados em um mercado emergente digital de dados pessoais, uma evolução que alterará drasticamente os setores de publicidade, pesquisas e análise de dados.Um mundo de 8,5 bilhões de personalidades Estima-se que a população mundial chegue a 8,5 bilhões de pessoas em 2030. Até lá, a tecnologia blockchain pode ser capaz de organizar, de forma coerente, confiável e segura, os dados sobre as pessoas que formam as comunidades e nações. Isso torna as sociedades centradas na pessoa humana tecnicamente possíveis, nas quais as ações e comportamentos dos cidadãos ficam digitalmente registradas em suas "personalidades", um registro imutável que funciona como uma única fonte da verdade para suas experiências e sensibilidades. Em essências, as pessoas gerarão dados de forma regular e em tempo real, adicionando-os cronologicamente a seus perfis coletivos, que conterão registros de saúde, histórico educacional, credenciais profissionais, registros eleitorais, carteiras de habilitação, antecedentes criminais, situação financeira e quaisquer outros aspectos notáveis que compõem a identidade de alguém. Essa personalidade pode se tornar o registro universalmente aceito ao qual todas as informações relacionadas à identidade podem estar atreladas. Todos os processos que costumamos usar para validar a identidade de alguém serão substituídos por um perfil individual e abrangente de blockchain. A commoditização dos dados pessoais terá um impacto profundo na forma como as pessoas se relacionam entre si e com empresas. Será que o fato de sermos responsáveis pela nossa própria personalidade — e sabermos que os detalhes das nossas vidas estarão registrados para sempre em nosso perfil de blockchain — mudará o nosso comportamento? Será que as tentativas para aumentar o valor da nossa personalidade se transformarão em uma extensão da tentativa de melhorar nossas próprias vidas? Ou vice-versa? A ascensão da personalidade pode alterar o nosso entendimento coletivo de propriedade de maneiras inéditas para a raça humana desde a concepção dos direitos individuais à propriedade. Os desafios do futuro para um mundo do blockchain   Avanços tecnológicos avassaladores sempre têm um lado negativo. Com a proliferação da tecnologia blockchain e a valorização dos dados pessoais, as sociedades correm o risco de ficar ainda mais polarizadas em termos financeiros e de classes sociais. Quem tem mais poder de compra naturalmente tem dados que valem mais para empresas que vendem produtos e serviços ou para instituições públicas que poderiam se beneficiar com o apoio financeiro ou influência dessas pessoas. Quem não tem dinheiro ou acesso a tecnologias modernas enfrentará profundas desvantagens, a menos que os governos (especialmente nas economias em desenvolvimento) implementem normas que impeçam que cidadãos vulneráveis sejam deixados para trás. As economias em desenvolvimento também precisam encontrar formas para integrar intermediários que lutarão contra a perspectiva da tornarem-se obsolteos à medida que as tecnologias de blockchain ganham popularidade. Embora seja difícil prever o futuro e os desafios que as mudanças nos trarão, a História nos mostra que a tecnologia sempre vence quando se cria valor. De uma forma inédita, o futuro do blockchain dá à raça humana a oportunidade de se entender tanto no âmbito coletivo quanto individual. Ao apresentar novos insights sobre os comportamentos humanos, relacionamentos e interações de consumo, podemos aprender uns com os outros e oferecer melhores condições para todos. Talvez os dados da tecnologia blockchain até mesmo demonstrem de forma convincente à humanidade como todos nós somos parecidos. No futuro, a pergunta mais importante que as pessoas se farão não será "Quem sou eu como indivíduo?", mas "Quem somos nós como sociedade?". A resposta para essa pergunta poderá criar o tipo de civilização que existe apenas nos sonhos de músicos, poetas e filósofos. Para saber mais sobre como a tecnologia blockchain , leia Mercer Digital’s Blockchain 101 Overview. 1Palmer, Danny. "What Is GDPR? Everything You Need to Know About the New General Data Protection Regulations." ZDNet, https://www.zdnet.com/article/gdpr-an-executive-guide-to-what-you-need-to-know/. 2"The HIPAA Privacy Rule." Office for Civil Rights, https://www.hhs.gov/hipaa/for-professionals/privacy/index.html.  

Inovação

small-tiles Vineet Malhotra | 11 abr 2019

Vincenzo Peruggia nasceu em 8 de outubro de 1881. Cerca de 30 anos depois, em uma manhã de segunda-feira de 1911, o italiano baixinho vestiu um avental branco – para se misturar com os outros empregados do Louvre em Paris – e saiu carregando a Mona Lisa. Ele simplesmente a tirou da parede. Pelos dois anos seguintes, a icônica obra-prima de Leonardo Da Vinci permaneceu enfiada em um baú no apartamento do ladrão em Paris. Por fim, Vincenzo cedeu à ansiedade e voltou à Florença, na sua amada terra natal, onde contatou um negociante de arte e tentou vender a famosa pintura. A polícia o prendeu em seu quarto de hotel. O que torna esta história fascinante não é que tenha sido espantosamente fácil sair andando com um tesouro da era da Renascença famoso mundialmente, mas que o crime de Vincenzo estava fadado ao fracasso desde o início. Todas as pessoas do mundo da arte conheciam a origem, o valor e a jornada da Mona Lisa até a sua casa no Louvre. Toda a procedência da pintura estava bem documentada e estabelecida. Seria impossível introduzir novamente a obra-prima roubada no mercado sem disparar alarmes por toda a parte. A tecnologia blockchain oferece o mesmo nível de transparência e autenticidade para todas as coisas – de um tapete persa ou um sushi de atum a um refinanciamento de imóveis ou mesmo um simples limão. Veja como. Fonte única da verdade de acordo mútuo   O primeiro passo para documentar dados em um blockchain exige processos operacionais focados na exatidão desde o início. A partir do passo inicial, todas as partes envolvidas em uma transação devem confirmar a identidade, o valor e as condições de controle que governam o ativo blockchain. Em nossa história protagonizada por Vincenzo Peruggia, por exemplo, trata-se da pintura de Da Vinci, a Mona Lisa. Ela está pendurada em uma determinada parede do Louvre e vale US$ 800 milhões. Não, ela não está à venda. O valor e as circunstâncias estão estabelecidos. Se qualquer pessoa tentar roubar ou adulterar a Mona Lisa, as partes envolvidas – o mundo, neste caso – perceberão. Com o blockchain, uma vez que as informações iniciais mutuamente acordadas sejam registradas com exatidão, elas se tornam a única fonte da verdade. E nunca precisarão ser verificadas. Depois que a integridade dos dados relacionados ao ativo de informação é estabelecida, a tecnologia blockchain impede qualquer interveniente desonesto de alterá-lo, porque todos no blockchain estão vendo as mesmas informações, ao mesmo tempo, em seus respectivos computadores, distribuídos por todo o mundo. Todos têm o mesmo acesso ao ativo original, confirmado e verificado, e ao que acontece com esses dados quando são movidos. Tentar abusar desse ativo digital ou saqueá-lo seria como roubar a Mona Lisa de incontáveis e bem protegidos Louvres em todo o mundo. Não há necessidade de intermediários   A tecnologia blockchain elimina a necessidade de intermediários ou atravessadores. Os intermediários costumam ser encarregados de proporcionar integridade a processos transacionais envolvendo partes que não se conhecem. Os bancos servem como intermediários para transações financeiras entre indivíduos e empresas. Os corretores imobiliários agem como intermediários para lidar com a papelada envolvida na venda de imóveis. Até intermediários ilegais, como plataformas piratas de download de músicas, roubam montantes significativos de royalties de músicos que têm suas músicas roubadas ou plagiadas online. O blockchain pode eliminar a necessidade e o impacto de todos esses tipos de intermediários. Tomemos como exemplo Eriko Matsuyama, uma estudante de arte fictícia de 23 anos da Universidade Tohoku no Japão, que está participando de um programa de intercâmbio em Paris. Eriko, que é uma pintora talentosa, passa todas as manhãs acampada em frente à Mona Lisa, compondo elaboradas aquarelas, cada uma oferecendo uma interpretação única da musa de Da Vinci. Ela tem até uma loja on-line, onde vende seus quadros originais a fãs ao redor do mundo. Por meio da tecnologia blockchain, Eriko pode autenticar o horário, a data e o desenvolvimento de cada pintura original e enviar tanto a aquarela original quanto uma cópia digital exclusiva aos seus compradores. Caso o comprador decida vender a pintura original ou a cópia digital, o blockchain pode servir como prova de autenticidade. Talvez, 30 anos no futuro, Eriko se torne uma artista famosa cuja obra valha milhões de dólares. Essas mesmas aquarelas e suas cópias digitais terão ainda mais valor, porque o blockchain garante a sua origem e autenticidade ao longo dos anos, independentemente de quantas vezes tenham sido compradas ou vendidas, sem nunca precisar de um intermediário para verificar a autenticidade ou ajudar no processo. Os dados se tornam semelhantes a um objeto físico   A Mona Lisa é, obviamente, um objeto físico, como as aquarelas originais de Eriko, que ela assina à mão, mas as cópias digitais das suas pinturas são ativos digitais. Atualmente, um ativo digital pode ser qualquer coisa, do prontuário médico de uma pessoa à escritura de um pedaço de terra. O blockchain torna possível que um ativo de dados exista no mundo digital da mesma maneira como um objeto físico existe no mundo real. O ativo de dados pode existir como uma cópia utilizável de um arquivo de dados. Com um blockchain, sempre existe apenas uma única cópia utilizável e protegida – da mesma maneira que a versão digital de uma pintura original de Eriko Matsuyama. Ela pode ser comprada e vendida, mas nunca alterada, copiada ilegalmente ou extraviada. No intervalo de 30 anos, a cópia digital de uma aquarela de Eriko Matsuyama pode ser comprada e vendida uma dúzia de vezes por indivíduos ou empresas que queiram imprimi-la em qualquer coisa, de camisetas a papel de parede. Mas apenas uma cópia digital existirá, para sempre e sempre. A oferta e a demanda determinam o preço de qualquer produto ou serviço. Se a quantidade de um ativo digital for limitada, então esse ativo é considerado raro e a dinâmica da oferta e da demanda passa a valer, assim como no mundo físico. O desejo do mercado cria um valor quantificável, que pode ser aplicado a qualquer coisa, de um ativo individual a uma criptomoeda. A tecnologia está constantemente fazendo o mundo avançar. No futuro, o mundo digital será caracterizado por uma matriz de rotas de comércio digital de todos os tamanhos, cada uma delas protegida por blockchain, livre da pirataria e da desinformação. Se o blockhain e as tecnologias modernas estivessem disponíveis em 1911, a Mona Lisa teria sido recuperada em menos de duas horas e não em dois anos. Hoje, a face icônica da Renascença tem ainda mais razões para sorrir. Para saber mais sobre como a tecnologia blockchain, leia Mercer Digital’s Blockchain 101 Overview.

Previdência

small-tiles David Anderson | 03 abr 2019

Os sistemas previdenciários asiáticos estão enfrentando problemas graves. A região passa por mudanças demográficas causadas por terremotos, juntamente com o envelhecimento da população e a redução das taxas de natalidade. Mas os retornos de investimentos são relativamente baixos devido à incerteza geopolítica e taxas de juros mínimas. Com relativamente poucos sistemas previdenciários sólidos na região, vários países asiáticos terão dificuldades para oferecer aposentadorias adequadas. Os governos precisam tomar medidas positivas agora para reduzir a pressão financeira e evitar conflitos de geração entre os jovens e os idosos. A expectativa de vida dos nascimentos na região aumentou de sete para 14 anos na maioria dos países nos últimos 40 anos, segundo o Índice Global Mercer- Melbourne de Sistemas Previdenciários (MMGPI) 2018, que classifica os sistemas previdenciários em todo o mundo segundo os critérios de adequação, sustentabilidade e integridade. Isso representa uma média de um ano a mais a cada quatro anos. O aumento na expectativa de vida de uma pessoa com 65 anos, nos últimos 40 anos, ficou entre 1,7 ano na Indonésia e 8,1 anos em Cingapura. Vários outros locais no resto do mundo estão enfrentando desafios semelhantes relacionados ao envelhecimento da população e os países têm buscado reformas políticas parecidas. Entre elas estão o aumento na idade de aposentadoria, o incentivo para que as pessoas trabalhem mais tempo, o aumento nos fundos destinados à aposentadoria e a redução das quantias monetárias que as pessoas podem tirar de suas contas previdenciárias antes de atingir a idade mínima para se aposentar. Os resultados do MMGPI 2018 levam à pergunta fundamental: que reformas os governos asiáticos podem implementar para melhorar, no longo prazo, os resultados de seus sistemas de renda para aposentadoria? O ponto de partida natural para criar um sistema previdenciário de alto nível é garantir o equilíbrio certo entre adequação e sustentabilidade. Um sistema que oferece benefícios volumosos no curto prazo tem pouca probabilidade de ser sustentável, enquanto um sistema que é sustentável por muitos anos geralmente oferece benefícios modestos. Sem mudanças nas idades de aposentadoria e idades mínimas para o acesso a pensões de planos de previdência pública e privada, a pressão sobre os sistemas previdenciários aumentará, o que pode ameaçar a segurança financeira oferecida aos idosos. A participação maior das mulheres e trabalhadores mais velhos na força de trabalho é capaz de aumentar a adequação e sustentabilidade. Japão, China e Coreia do Sul estão próximos do fim da lista de classificação do índice Mercer. Seus sistemas previdenciários não representam um modelo sustentável que apoie a aposentadoria das gerações atuais e futuras. Se forem mantidos inalterados, esses países sofrerão conflitos sociais visto que os benefícios previdenciários não serão distribuídos igualmente entre as gerações. O Japão, por exemplo, está engatinhando em direção à reforma de seu sistema previdenciário, aumentando gradualmente a idade mínima de aposentadoria de cerca de 3,4 milhões de funcionários públicos para 65 anos, contra os 60 anos atuais. Os aposentados japoneses podem escolher agora começar a receber sua aposentadoria a qualquer momento entre as idades de 60 e 70, com salários mensais mais altos oferecidos àqueles que começarem aos 65 anos ou mais. Dona da maior expectativa de vida e menor taxa de natalidade mundial, a população do Japão deve diminuir. Essa difícil situação já vem causando escassez de habilidades, o que terá impacto futuro na redução da base da receita tributária do Japão. O governo japonês poderia melhorar seu sistema previdenciário com o incentivo a níveis mais altos de poupanças familiares e com o aumento contínuo no nível de cobertura da previdência estatal, visto que 49% da população em idade ativa não é coberta pelos planos de previdência privada. A inclusão do requisito de que parte do benefício da aposentadoria deve ser considerada uma fonte de renda e não uma quantia única melhorará a sustentabilidade geral do sistema de previdência social, assim como a redução da dívida pública como uma porcentagem do produto interno bruto, já que isso aumenta a probabilidade de manutenção do nível atual de pagamentos de aposentadoria. A China enfrenta problemas diferentes. O sistema previdenciário único da China é composto por diversos planos para a população rural e urbana, bem como para trabalhadores rurais migrantes e funcionários do setor público. Os sistemas urbano e rural têm uma pensão básica de pagamento no momento da utilização que consiste em uma conta composta (por contribuições do empregador ou despesas públicas) e contas individuais custeadas (por contribuições do funcionário). Alguns empregadores também oferecem planos complementares, principalmente nas áreas urbanas. O sistema previdenciário chinês poderia ser aprimorado aumentando a utilização das contribuições dos trabalhadores nas pensões, de modo a reforçar a proteção geral de aposentadoria dos trabalhadores e elevando o auxílio mínimo dos aposentados mais pobres. Também deve ser incluído o requisito de que parte do benefício da aposentadoria complementar deve ser considerado uma fonte de renda. Mais opções de investimento devem ser oferecidas aos pensionistas de modo a permitir maior exposição aos ativos de crescimento, enquanto os planos de aposentadoria devem melhorar sua comunicação com os membros. Hong Kong deve considerar a inclusão de incentivos fiscais para estimular as contribuições voluntárias dos membros, aumentando assim a quantia economizada para a aposentadoria. Além disso, também deve exigir que parte do benefício da aposentadoria seja considerada uma fonte de renda. Os trabalhadores mais velhos devem ser mantidos no mercado de trabalho à medida que a expectativa de vida aumenta. A Coreia do Sul sofre com um dos mais fracos sistemas previdenciários para a população menos favorecida economicamente, contabilizando uma porcentagem do salário médio de apenas 6%. Esse sistema seria beneficiado se melhorasse o nível de auxílio oferecido aos pensionistas mais pobres, incluindo o requisito de que parte do benefício da aposentadoria de planos privados seja considerada uma fonte de renda e aumentando o nível total de contribuições. O sistema previdenciário bem estruturado de Cingapura tem a melhor classificação na região e já viu melhorias na sustentabilidade. Seu sistema de aposentadoria, o Fundo Central de Previdência (CPF, Central Provident Fund), oferece flexibilidade a seus membros, que incluem todos os habitantes e residentes permanentes empregados de Cingapura. Porém, é possível fazer mais. Deveriam ser reduzidos os obstáculos para a criação de planos conjuntos corporativos de aposentadoria com aprovação fiscal e o CPF também deveria ser aberto a trabalhadores temporários não residentes, que compõem mais de um terço da força de trabalho. A idade em que os membros do CPF podem acessar suas economias também deveria ser elevada. Uma vez que os sistemas previdenciários são um problema que atravessa gerações, eles exigem uma perspectiva de longo prazo. Os sistemas previdenciários, um dos maiores investidores institucionais em qualquer mercado, devem reconhecer cada vez mais a importância de serem bons administradores do capital a eles confiado, gerenciando, inclusive, riscos como a mudança climática, por exemplo. Com o envelhecimento da população asiática e sua contínua produtividade atingindo os 70 e 80 anos de idade, é fundamental melhorar a oferta de uma renda de aposentadoria adequada e sustentável. Elevar a idade mínima de aposentadoria, ampliar a cobertura dos planos de aposentadoria privada para os trabalhadores e incentivar o planejamento financeiro e as economias antecipadas devem ser o foco dos empregadores e legisladores. Artigo publicado originalmente em Nikkei Asian Review.

Escolhas do editor

Previdência

Ásia deve atravessar crise do setor previdenciário
David Anderson | 03 abr 2019

Os sistemas previdenciários asiáticos estão enfrentando problemas graves. A região passa por mudanças demográficas causadas por terremotos, juntamente com o envelhecimento da população e a redução das taxas de natalidade. Mas os retornos de investimentos são relativamente baixos devido à incerteza geopolítica e taxas de juros mínimas. Com relativamente poucos sistemas previdenciários sólidos na região, vários países asiáticos terão dificuldades para oferecer aposentadorias adequadas. Os governos precisam tomar medidas positivas agora para reduzir a pressão financeira e evitar conflitos de geração entre os jovens e os idosos. A expectativa de vida dos nascimentos na região aumentou de sete para 14 anos na maioria dos países nos últimos 40 anos, segundo o Índice Global Mercer- Melbourne de Sistemas Previdenciários (MMGPI) 2018, que classifica os sistemas previdenciários em todo o mundo segundo os critérios de adequação, sustentabilidade e integridade. Isso representa uma média de um ano a mais a cada quatro anos. O aumento na expectativa de vida de uma pessoa com 65 anos, nos últimos 40 anos, ficou entre 1,7 ano na Indonésia e 8,1 anos em Cingapura. Vários outros locais no resto do mundo estão enfrentando desafios semelhantes relacionados ao envelhecimento da população e os países têm buscado reformas políticas parecidas. Entre elas estão o aumento na idade de aposentadoria, o incentivo para que as pessoas trabalhem mais tempo, o aumento nos fundos destinados à aposentadoria e a redução das quantias monetárias que as pessoas podem tirar de suas contas previdenciárias antes de atingir a idade mínima para se aposentar. Os resultados do MMGPI 2018 levam à pergunta fundamental: que reformas os governos asiáticos podem implementar para melhorar, no longo prazo, os resultados de seus sistemas de renda para aposentadoria? O ponto de partida natural para criar um sistema previdenciário de alto nível é garantir o equilíbrio certo entre adequação e sustentabilidade. Um sistema que oferece benefícios volumosos no curto prazo tem pouca probabilidade de ser sustentável, enquanto um sistema que é sustentável por muitos anos geralmente oferece benefícios modestos. Sem mudanças nas idades de aposentadoria e idades mínimas para o acesso a pensões de planos de previdência pública e privada, a pressão sobre os sistemas previdenciários aumentará, o que pode ameaçar a segurança financeira oferecida aos idosos. A participação maior das mulheres e trabalhadores mais velhos na força de trabalho é capaz de aumentar a adequação e sustentabilidade. Japão, China e Coreia do Sul estão próximos do fim da lista de classificação do índice Mercer. Seus sistemas previdenciários não representam um modelo sustentável que apoie a aposentadoria das gerações atuais e futuras. Se forem mantidos inalterados, esses países sofrerão conflitos sociais visto que os benefícios previdenciários não serão distribuídos igualmente entre as gerações. O Japão, por exemplo, está engatinhando em direção à reforma de seu sistema previdenciário, aumentando gradualmente a idade mínima de aposentadoria de cerca de 3,4 milhões de funcionários públicos para 65 anos, contra os 60 anos atuais. Os aposentados japoneses podem escolher agora começar a receber sua aposentadoria a qualquer momento entre as idades de 60 e 70, com salários mensais mais altos oferecidos àqueles que começarem aos 65 anos ou mais. Dona da maior expectativa de vida e menor taxa de natalidade mundial, a população do Japão deve diminuir. Essa difícil situação já vem causando escassez de habilidades, o que terá impacto futuro na redução da base da receita tributária do Japão. O governo japonês poderia melhorar seu sistema previdenciário com o incentivo a níveis mais altos de poupanças familiares e com o aumento contínuo no nível de cobertura da previdência estatal, visto que 49% da população em idade ativa não é coberta pelos planos de previdência privada. A inclusão do requisito de que parte do benefício da aposentadoria deve ser considerada uma fonte de renda e não uma quantia única melhorará a sustentabilidade geral do sistema de previdência social, assim como a redução da dívida pública como uma porcentagem do produto interno bruto, já que isso aumenta a probabilidade de manutenção do nível atual de pagamentos de aposentadoria. A China enfrenta problemas diferentes. O sistema previdenciário único da China é composto por diversos planos para a população rural e urbana, bem como para trabalhadores rurais migrantes e funcionários do setor público. Os sistemas urbano e rural têm uma pensão básica de pagamento no momento da utilização que consiste em uma conta composta (por contribuições do empregador ou despesas públicas) e contas individuais custeadas (por contribuições do funcionário). Alguns empregadores também oferecem planos complementares, principalmente nas áreas urbanas. O sistema previdenciário chinês poderia ser aprimorado aumentando a utilização das contribuições dos trabalhadores nas pensões, de modo a reforçar a proteção geral de aposentadoria dos trabalhadores e elevando o auxílio mínimo dos aposentados mais pobres. Também deve ser incluído o requisito de que parte do benefício da aposentadoria complementar deve ser considerado uma fonte de renda. Mais opções de investimento devem ser oferecidas aos pensionistas de modo a permitir maior exposição aos ativos de crescimento, enquanto os planos de aposentadoria devem melhorar sua comunicação com os membros. Hong Kong deve considerar a inclusão de incentivos fiscais para estimular as contribuições voluntárias dos membros, aumentando assim a quantia economizada para a aposentadoria. Além disso, também deve exigir que parte do benefício da aposentadoria seja considerada uma fonte de renda. Os trabalhadores mais velhos devem ser mantidos no mercado de trabalho à medida que a expectativa de vida aumenta. A Coreia do Sul sofre com um dos mais fracos sistemas previdenciários para a população menos favorecida economicamente, contabilizando uma porcentagem do salário médio de apenas 6%. Esse sistema seria beneficiado se melhorasse o nível de auxílio oferecido aos pensionistas mais pobres, incluindo o requisito de que parte do benefício da aposentadoria de planos privados seja considerada uma fonte de renda e aumentando o nível total de contribuições. O sistema previdenciário bem estruturado de Cingapura tem a melhor classificação na região e já viu melhorias na sustentabilidade. Seu sistema de aposentadoria, o Fundo Central de Previdência (CPF, Central Provident Fund), oferece flexibilidade a seus membros, que incluem todos os habitantes e residentes permanentes empregados de Cingapura. Porém, é possível fazer mais. Deveriam ser reduzidos os obstáculos para a criação de planos conjuntos corporativos de aposentadoria com aprovação fiscal e o CPF também deveria ser aberto a trabalhadores temporários não residentes, que compõem mais de um terço da força de trabalho. A idade em que os membros do CPF podem acessar suas economias também deveria ser elevada. Uma vez que os sistemas previdenciários são um problema que atravessa gerações, eles exigem uma perspectiva de longo prazo. Os sistemas previdenciários, um dos maiores investidores institucionais em qualquer mercado, devem reconhecer cada vez mais a importância de serem bons administradores do capital a eles confiado, gerenciando, inclusive, riscos como a mudança climática, por exemplo. Com o envelhecimento da população asiática e sua contínua produtividade atingindo os 70 e 80 anos de idade, é fundamental melhorar a oferta de uma renda de aposentadoria adequada e sustentável. Elevar a idade mínima de aposentadoria, ampliar a cobertura dos planos de aposentadoria privada para os trabalhadores e incentivar o planejamento financeiro e as economias antecipadas devem ser o foco dos empregadores e legisladores. Artigo publicado originalmente em Nikkei Asian Review.

Investimentos

4 ameaças às economias em desenvolvimento da região Ásia-Pacífico
Peta Latimer | 21 mar 2019

As economias da região Ásia-Pacífico (APAC) passam pelas flutuações da economia mundial de maneiras muito peculiares, pois cada uma delas é definida por circunstâncias próprias em termos geográficos, sociais e financeiros. No entanto, o ritmo acelerado da transformação digital e o acirramento das tensões geopolíticas conectam os destinos de todas as economias em desenvolvimento da região APAC aos efeitos onipresentes da globalização. Embora as economias da região tenham uma projeção de crescimento sólido de 5,6% nos próximos dois anos, esta previsão otimista está sujeita a graves vulnerabilidades.1 As áreas de exposição podem ser organizadas em quatro categorias: econômica, geopolítica, técnica e ambiental. Vejamos cada uma dessas categorias e como elas podem criar desafios para as nações prontas para crescer no curto prazo. 1. Economia: dívidas e habitação   Em 2016, a região APAC superou a América do Norte como a maior parcela na dívida mundial. De fato, a região é responsável por 35% da dívida mundial, mantendo um crescimento notavelmente regular desde a crise financeira de 2008. Essa dívida deixa as economias regionais suscetíveis a taxas de juros mais altas e uma possível crise de inadimpléncia. Cada economia tem áreas específicas de exposição. Na China, por exemplo, as dívidas de corporações não financeiras e das famílias estão subindo, enquanto no Japão, a maior preocupação é a dívida pública que expõe seu mercado de títulos soberanos. A Índia também está enfrentando o impacto de seus US$ 210 bilhões em gastos com empréstimos de liquidação duvidosa. Os preços de imóveis residenciais em toda a região APAC vêm subindo em ritmo mais acelerado do que o da renda desde 2010, especialmente em lugares como Hong Kong, Austrália, Nova Zelândia e Índia, onde as famílias em Mumbai praticamente não conseguem encontrar imóveis a valores acessíveis. Embora o alto preço da moradia deixe a região alerta à possibilidade iminente do estouro de uma bolha imobiliária, cada país tem seus próprios mecanismos de crédito e números de dívidas familiares que determinam seus níveis de risco. Essas economias precisam se atentar às lições aprendidas com a crise do mercado imobiliário dos EUA em 2008, em que as famílias inadimplentes contribuíram para uma crise econômica mundial que assombra até hoje o setor bancário internacional. De fato, a Austrália apresenta hoje um dos mais altos níveis de dívida familiar do mundo. Considerando que os portfólios dos bancos australianos se baseiem majoritariamente em empréstimos hipotecários — que hoje estão em níveis bem mais elevados do que o mercado imobiliário americano imediatamente antes da deflagração da crise de 2008, muitos investidores americanos e internacionais estão mais inclinados a fazer um hedge do mercado australiano. 2. Geopolítica: protecionismo e desigualdade   Em uma economia global interconectada, todas as regiões são afetadas pelas dinâmicas e tarifas do comércio internacional. A crescente guerra comercial entre a China e os EUA ameaça cadeias de suprimento em toda a região APAC, e uma tendência protecionista pode se infiltrar na intrincada rede de economias de lá, considerando que alguns países têm mais dificuldades do que outros. O dinamismo dos acontecimentos geopolíticos gera incertezas. Essa ansiedade geralmente leva empresas e políticos a restringir e isolar a exposição de suas economias a consequências negativas. De fato, enquanto a China e os EUA redefinem suas prioridades, as nações da região APAC são forçadas a decidir onde e como elas se encaixam neste cenário inconstante. Da Austrália à Índia, as economias da Ásia-Pacífico precisam lidar com as complexidades da cooperação e a concorrência com outras nações sem criar indisposição entre parceiros comerciais nem sacrificar oportunidades de crescimento. Embora a região APAC busque estabilidade em um cenário geopolítico caótico, muitas economias estão passando por enormes mudanças demográficas internas em decorrência do comércio global. O acesso a portos marítimos preparados para operações comerciais, hubs tecnológicos e vagas para profissionais altamente qualificados fez nascer metrópoles e megacidades. A ininterrupta migração das gerações mais novas para zonas urbanas com infraestrutura, culturas e ideias inovadoras está marginalizando a periferia e as zonas rurais. Esta crescente disparidade entre privilegiados e desprivilegiados pode gerar desigualdade de renda e riqueza, disseminar a indignação e causar um mal-estar civil. Os políticos estão tentando administrar as atitudes e as regulamentações predominantes que moldam o gerenciamento de capital humano na região APAC. Josephine Teo, a Ministra do Trabalho de Cingapura, abordou recentemente que os cidadãos do país precisam ir para países vizinhos para trabalhar e pediu para seus conterrâneos não descartarem possibilidades de trabalho em outras economias em desenvolvimento na região APAC, especialmente agora que Cingapura está estreitando seus laços comerciais com a China.2 3. Tecnologia: milagres e ameaças   A tecnologia moldará o futuro da economia mundial. O ritmo de desenvolvimento de novos dispositivos e tecnologias é mais acelerado do que a regulamentação pelos governos, e esta falta de fiscalização criará oportunidades inéditas de crescimento econômico, inovações e crimes. A tecnologia ajudou a região APAC a aumentar a produtividade de sua força de trabalho, a avançar nas reformas sociais e a dominar a sustentabilidade ambiental. O impacto da transformação digital para as nações que formam a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) é impressionante, especialmente no setor de comércio eletrônico, no qual os membros da ASEAN responderam por 40% do volume de vendas mundial no primeiro trimestre de 2017. Só no Sudeste Asiático, espera-se que a quantidade de pessoas com acesso à Internet e a todas as suas possibilidades triplique até 2025, passando de 200 milhões para 600 milhões de usuários.3 Embora alguns postos de trabalho sejam extintos com a chegada de novas tecnologias, elas mesmas devem criar muitas vagas novas. De fato, muitas empresas que criam sistemas de inteligência artificial descobriram que trabalhadores humanos têm um papel ativo no projeto e na execução dessa tecnologia.4 A História também mostra que a inovação gera empregos. Peguemos o surgimento do computador, por exemplo. Embora a demanda por datilógrafos possa ter diminuído, a informática criou novas funções relativas ao desenvolvimento de softwares, operação dos computadores e programação. No entanto, esses prós também trouxeram desafios modernos. Hackers extremamente habilidosos de todas as partes do mundo continuarão atrás de pontos fracos de governos, instituições e empresas de todos os portes. À medida que os dados e a informação passarem a ser recursos cada vez mais valiosos e naturais, os ataques cibernéticos entre países aumentarão em frequência e complexidade. A confluência de alianças entre governos e multinacionais terá ramificações que mudarão a vida das populações e de seus direitos à privacidade. Considerando que cada país tem suas próprias políticas de direitos humanos e acesso a dados pessoais, uma nova geração de leis que regulamentam o ambiente digital emergirá para definir proteções e mitigar a falibilidade humana à medida que as pessoas estão cada vez mais conectadas à tecnologia. 4. Meio ambiente: desastres naturais e soluções criadas pelo ser humano   Os fatores ambientais determinarão as perspectivas econômicas e a qualidade de vida em geral para a região APAC. Geograficamente, ela é a região do planeta mais propensa a desastres. Intercorrências naturais, como inundações e ciclones tropicais, causam danos imensos às zonas litorâneas, onde há maior concentração de pessoas, infraestrutura e instituições. A imprevisibilidade de desastres naturais geralmente causa mortes repentinas — e, às vezes, em massa —, desalojamento de populações e caos socioeconômico. Após traumas tão grandes, cada cidadão e a sociedade em geral precisam lidar com o peso emocional e a desestabilização dos serviços de saúde até que o governo e outras entidades consigam prover meios de alívio. A região APAC precisa ser proativa na implementação de políticas e sistemas integrados capazes de mitigar a devastação que os desastres naturais causam a seus povos e a suas economias. Isso já está acontecendo: mercados mais maduros, como Hong Kong, aumentaram radicalmente sua capacidade de alinhar recursos e responder de forma rápida a fenômenos naturais, como furacões. Conforme as tecnologias e os interesses comerciais continuarem conectando ainda mais a região APAC, os governos precisarão decidir quais são exatamente suas responsabilidades perante outras nações e a região. Dados da UNESCAP   Em uma escala global, a região APAC tem um importante papel no controle de poluentes e emissões danosas. Infraestruturas antigas e regulamentações pouco rigorosas precisam ser substituídas por tecnologias e políticas modernas. No entanto, essa mudança pode ser lenta e cara. Muitas economias da região APAC ainda dependem de recursos energéticos tradicionais, como o carvão e outros combustíveis fósseis. Mesmo assim, um grande progresso tem acontecido nas esferas regionais e locais. A China, por exemplo, já teve um avanço notável ao implementar tecnologias de combustível verde para substituir o carvão e o petróleo e reduzir os poluentes atmosféricos.5 As novas iniciativas da China para trocar os combustíveis fósseis por recursos limpos, como as energias solar e eólica, resultaram em uma melhora significativa da qualidade do ar em cidades como Pequim, sem prejudicar a economia do país. De fato, a China considera que os recursos sustentáveis são o futuro da energia e está fazendo investimentos agressivos em negócios verdes, como painéis solares de alta tecnologia (dois terços dos painéis solares do mundo são fabricados na China) e veículos elétricos, superando até mesmo a Tesla com uma projeção de vendas anuais de 7 milhões de unidades até 2025.6 A região APAC também fez acordos sobre estruturas e novas tecnologias que promovam fontes de energia renovável para combater a poluição atmosférica e a escassez de água, problemas que se enquadram como ameaças diretas e imediatas. Equilibrar o desenvolvimento e o progresso econômico com iniciativas relacionadas ao clima e à sustentabilidade será desafiador, mas necessário. As mudanças climáticas, assim como outros desafios da região, exigirão uma nova era de cooperação entre as nações, governos e forças de trabalho locais. Com a saída dos EUA da Parceria Transpacífica (PTP) em janeiro de 2017, os países da Ásia-Pacífico se viram obrigados a considerar uma abordagem mais regional para solucionar problemas globais. Os líderes da APAC, no entanto, insistiram e, em 2018, assinaram uma nova versão do acordo da PTP e firmaram compromissos com Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Nova Zelândia, Malásia, México, Peru, Cingapura e Vietnã. O novo acordo, chamado Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (AAPPTP), representa cerca de 14% do PIB mundial (menos do que os 40% que a PTP original representava) e, além de detalhar novas dinâmicas comerciais e regulamentações de fiscalização entre os países-membros, também prevê o cumprimento de leis de proteção ambiental de acordo mútuo. Algumas das cláusulas sobre propriedade intelectual, arbitragem e solução de conflitos sobre investimentos foram deixadas de fora do novo tratado para manter a confiança na colaboração multilateral em questões específicas e intervenções locais por parte de governos individuais necessárias ao interesse público. O novo tratado não regula a migração de trabalhadores na região, e os países-membros confirmaram o interesse em proteger seus setores agrário e de serviços. O foco cada vez mais nacionalista dos EUA pode obrigar a região APAC a estreitar suas relações internas, abrindo mais espaço para oportunidades comerciais, intercâmbio de mão de obra e participação conjunta na transformação digital mundial. Com a maioria dos membros pronta para ratificar o novo tratado, este é um bastião do livre comércio em meio a uma crescente retórica protecionista presente em todo o mundo. Há muitos motivos para se ter otimismo quanto ao futuro da região APAC. A transformação digital oferece às economias da região APAC oportunidades inéditas de crescimento e a possibilidade de conectar suas forças de trabalho ao crescimento global da demanda de avanços tecnológicos, empreendedorismo e inovação. A necessidade premente de abordar questões ambientais e contratempos financeiros está gerando um senso de urgência em toda a região. A abertura à colaboração para resolver os problemas é um bom sinal para o futuro da Ásia-Pacífico, à medida que suas lideranças comprometidas e organizações locais coordenam seus pontos fortes coletivos para gerar prosperidade para toda a região. Com a evolução da economia mundial, a região APAC está pronta para desempenhar um papel cada vez mais influente. Leia o relatório 14 Shades of Risk da Marsh & Mclennan na Ásia-Pacífico para saber mais. 1Evolving Risk Concerns in Asia-Pacific:, http://bit.ly/2APQVlZ. 2Lee, Pearl. "Ties with China Multifaceted and Strong: Josephine Teo." The Straits Times, 2 Mar. 2017, www.straitstimes.com/singapore/ties-with-china-multifaceted-and-strong-josephine-teo. 3"Asean the 'next Frontier' for e-Commerce Boom." Bangkok Post. https://www.bangkokpost.com/business/news/1249798/asean-the-next-frontier-for-e-commerce-boom. 4Mims, Christopher. "Without Humans, Artificial Intelligence Is Still Pretty Stupid." The Wall Street Journal, https://www.wsj.com/articles/without-humans-artificial-intelligence-is-still-pretty-stupid-1510488000?mod=article_inline. 5Song, Sha. "Here's How China Is Going Green." Fórum Econômico Mundial,, www.weforum.org/agenda/2018/04/china-is-going-green-here-s-how/. 66Jeff Kearns, Hannah Dormido e Alyssa McDonald.. "China's War on Pollution Will Change the World." Bloomberg, www.bloomberg.com/graphics/2018-china-pollution/.

Carreira

O papel das mulheres no plano Saudi Vision 2030 da Arábia Saudita
Najla Najm | 02 mai 2019

Ao longo dos anos, temos testemunhado a transformação verdadeiramente impressionante das mulheres na força de trabalho da Arábia Saudita. O Decreto Real de 2017, que reconheceu o direito de dirigir das mulheres, foi um passo monumental para a mobilidade das mulheres que trabalham. Entretanto, mudanças significativas começaram a tomar forma muito antes: da indicação da primeira Vice-Ministra em 2009 à aceitação de mulheres no Conselho Shura em 2013. A transformação foi impulsionada principalmente por um foco geral na educação das mulheres. De fato, em 2008 foi anunciado que a Universidade Princess Nourah em Riade era a maior universidade para mulheres do mundo.1 Esses passos foram apenas a ponta do iceberg na preparação, pela Arábia Saudita, do cenário para a participação igualitária da mulher no cenário mundial, que se tornou um fator crucial para o sucesso do plano Saudi Vision 2030.2 De um ponto de vista global, o Reino da Arábia Saudita participa de um diálogo maior que está ocorrendo na força de trabalho. Essa conversa inclui a equiparação salarial na América do Norte, a falta de representação feminina nos conselhos da Europa e tudo o que está relacionado a essas questões. Aliás, a Mercer dirige uma campanha em colaboração com o Fórum Econômico Mundial, que inclui um estudo chamado When Women Thrive ("Quando as mulheres prosperam"). De acordo com o estudo, no nível de mudança atual, serão necessários 217 anos para resolver a diferença econômica global entre os gêneros. Ao mesmo tempo, torna-se cada vez mais claro que a igualdade de gênero e a participação das mulheres na força de trabalho devem ser levadas em conta para o crescimento dos negócios e da sociedade como um todo. O relatório também sugere que a diversidade na força de trabalho é um imperativo dos negócios que comprovadamente impulsiona os resultados. Organizações em todo o mundo estão percebendo os benefícios e se esforçando para aumentar a representação na alta diretoria e possibilitar a ascensão profissional das mulheres. Da perspectiva local, apoiando a concretização do Saudi Vision 2030, têm ocorrido muitos anúncios de organizações reconhecidas, tanto no governo quanto no setor privado, nomeando mulheres como líderes, executivas e membros de conselhos de direção. Recentemente, a Saudi Aramco, a empresa de petróleo mais lucrativa do mundo, indicou sua primeira mulher para o conselho de administração, enquanto o Citigroup indicou uma mulher para liderar seus negócios na Arábia Saudita. As empresas vêm alcançando um progresso sustentável no aumento da representação na alta diretoria, possibilitando a ascensão das mulheres e reduzindo a distância salarial. Elas estão contratando e promovendo funcionários com base na competência, já que talento e capacidade são os fatores determinantes do sucesso operacional, e as mulheres estão prontas para liderar o caminho. Então, como exatamente as organizações da Arábia Saudita vão garantir que as mulheres prosperem, impulsionando assim o plano Saudi Vision 2030? Hoje, quase 50% da população da Arábia Saudita é composta por mulheres, mas atualmente apenas 20% da força de trabalho é de mulheres.3 Entre mulheres com educação superior, essa porcentagem é maior. Existe espaço para utilizar esse talento com a liberação do enorme potencial das mulheres na Arábia Saudita. O estudo When Women Thrive lista maneiras como as organizações podem fomentar a igualdade entre os gêneros. Por exemplo, analisar os dados da força de trabalho permite que os empregadores vejam quais as experiências de carreira que possuem maior valor para o desenvolvimento e avaliar se as mulheres têm ou não acesso igualitário a essas oportunidades. Os empregadores podem então considerar oportunidades de requalificação e otimizar o emprego dos talentos de modo a garantir que as funcionárias fiquem satisfeitas com o seu aprendizado. Como resultado, as organizações se beneficiam da motivação dos funcionários, que encontram novas maneiras de produzir valor. Com a transformação em larga escala da Arábia Saudita, as pessoas e as competências serão fundamentais para o sucesso do plano Saudi Vision 2030, uma vez que as pessoas são a força motriz por trás de toda grande mudança. Devido aos avanços recentes nas oportunidades para as mulheres e ao conhecimento e às competências que elas trarão para uma força de trabalho cada vez mais diversificada, o crescimento sustentável depende do aproveitamento dos talentos corretos para alimentar o futuro. O resultado é a mudança de posicionamento da Arábia Saudita, de um país que foi movido pelo petróleo para um país movido pelo talento. "Ao longo dos próximos anos, será fascinante ver como as mulheres continuarão a moldar o crescimento da Arábia Saudita para liberar o verdadeiro potencial do país no cenário mundial." 1"World's Largest University for Women Launched in Saudi Arabia", Arab News, May 2011,https://www.edarabia.com/21384/worlds-largest-university-for-women-launched-in-saudi-arabia/. 2"Our Vision: Saudi Arabia, the Heart of the Arab and Islamic Worlds, the Investment Powerhouse and the Hub Connecting Three Continents," Saudi Vision 2030, https://vision2030.gov.sa/en. 3Trading Economics, 20 Million Indicators From 196 Countries,https://tradingeconomics.com.  

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